Música

mixtape: the aether tapes

Entre todos os serviços de streaming que brigam pela preferência do usuário, o 8tracks é um azarão. E também um dos mais interessantes.

Para quem nunca usou o serviço, vale um tutorial rápido: diferente de Spotify, Deezer e Rdio (pra ficar nos três principais), o 8tracks oferece um serviço que emula as velhas-mas-nem-tão-velhas-assim compilações em cassete, de um modo mais interessante que as ferramentas de criação de playlists dos serviços citados acima. O “catálogo” do 8tracks é construído pelos próprios usuários, que podem subir músicas das suas bibliotecas pessoais ou do soundcloud pra criar as fitinhas virtuais. Por um lado, isso limita um pouco as opções. Mas também favorece  a descoberta de sons inesperados, já que esse modelo é mais simpático aos artistas underground, que estão abaixo do radar do Spotify (Me refiro a experiência de usuário, não de remuneração aos artistas. Esse já é outro papo.)

Tenho usado o 8tracks de maneira intermitente há quase dois anos. Depois de um longo período longe, voltei esses dias para redescobrir algumas das minhas mixtapes favoritas e acabei criando uma nova, com alguns artistas que ouvi online numa tarde de garimpo no éter virtual.

Eis, com algumas comentários sobre as faixas e os artistas:

Levitation Room, “Loved”. Banda psicodélica de Los Angeles que lançou o EP Minds of our Own esse ano. Saiu em uma bela edição em cassete via Burger Records, mas também dá para ouvir no bandcamp deles.

The Rashita Joneses, “Mosquito”. Não sei muito sobre esse novíssimo trio de Winsconsin. Até agora, só lançaram esse single, que está como download gratuito no bandcamp. Fui ouvir por causa do nome e acabei gostando. No site rockofhearts.com tem uma entrevista com eles.

Tijuana Panthers, “Don’t Shoot Your Guns“. Talvez a banda menos desconhecida nesta fitinha, os Tijuana Panthers são um trio garageiro que já lançou bastante coisa. Essa faixa está no disco Max Baker. Mais info e sons no site deles.

Has a Shadow, “John Lennon”. Porrada psicodélica direto de Guadalajara, México. Estrearam ano passado com o ótimo Sky is Hell Black, que saiu via Captcha Records.

Adult Books, “Bedsit Infamies”. Punk rock meio chiclete, com jeitão de anos 90. Me lembra bastante o tipo de som que meus amigos na escola ouviam e queriam fazer com as bandas que tinham. Essa faixa é do disco deles de 2012, que tem aquela foto malhada de Kerouac & Neal Cassady na capa.

The Shivas, “You Make Me Wanna Die”. Pra variar, uma de amor. Cortesia do The Shivas e seu disco You Know What to Do, que saiu no fim do ano passado.

Dude York, “Believer”. Pop pesado e grudento vindo de Seattle. Do disco Dehumanize, que também saiu em cassete pela Burger Records. Melhor trecho da letra: “Even tought I’m a nihilist, I believe in getting caught up…”

Gaax, “Mega Boy”. Projeto de um cara só lá do Rio de Janeiro. “Mega Boy” é o primeiro single de um álbum que deve sair em breve, via Transfusão Noise Records.

Wett Nurse, “Hissy Fitt”. Doidera sem limites direto de Michigan. Com direito a eco nos vocais e órgão lisérgico. Ouça mais aqui.

Cool Ghouls, “What a Dream I Had”.  Fechando com uma psicodelia um pouco mais clássica, que ecoa desde os Byrds e os Beatles pós-Help e pré-Sgt. Peppers  (“Paperback Writer/Rain”) até coisas mais recentes, como Ride, Cosmic Rough Riders e Black Rebel Motorcycle Club. Do disco A Swirling Fire Burning Through the Rye, lançado ano passado pela Empty Cellar.

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Literatura, Música

Trilha sonora acidental # 1

Às vezes, por pura obra da ciência do acidente, acontece de uma leitura esbarrar num disco e ter tudo a ver. Nessa série, que começa nesse primeiro post, indico –  ou relato – algumas trilhas que parecem ter sido feitas pra sincronizar com certos livros, quadrinhos, textos.

No primeiro exemplo, temos…

 

… combinado com:

2001

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Música

por onde andará lewis?

Em 1983, um tal de Lewis lançou um álbum chamado L’ Amour. Na capa do disco, que saiu pelo obscuro selo R.A.W. com uma tiragem mínima, um homem entre 25 e 30 anos, loiro, de peito nu, encarava a câmera com uma languidez fantasmagórica, numa foto desbotada em branco e preto.

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As dez canções do vinil não eram menos assombradas. Se os títulos sugeriam baladas românticas (“Let’s Fall In Love Tonight”, “Romance for Two”, “Cool Night in Paris”), os arranjos eram de trincar o espinhaço. Sintetizadores gélidos, pianos e violões delicados e vocais um tom acima do murmúrio afundam cada faixa em uma confortável atmosfera de melancolia e estranheza.

Os dois parágrafos acima poderiam muito bem resumir os primeiros passos de um grande artista, se as coisas não tivessem tomado o rumo do lado bizarro da Força. Tão subitamente quanto apareceu, Lewis sumiu do mapa sem deixar nenhuma informação biográfica atrás de si. L’Amour passou anos engavetado nas coleções de alguns caçadores de raridades, até ser redescoberto pelos garimpeiros da web e virar cult album.

Mesmo sem ter notícia sobre o paradeiro de Lewis, o selo americano Light in the Attic, especializado em raridades, resolveu comprar a briga e anunciou para junho desse ano o relançamento de L’Amour em vinil, CD e arquivo digital.

No site do selo, um texto interessantíssimo detalha a investigação empreendida pelo time da gravadora em busca do paradeiro do artista e algumas das teorias sobre a verdadeira identidade do músico. As descobertas – surpreendentes! – trouxeram mais perguntas que respostas, mas mesmo assim o selo decidiu prosseguir adiante com o projeto. E avisa: os royalties do disco ficarão guardadinhos, caso Lewis resolva aparecer para cobrá-los.

Enquanto o cara não vem e o reissue não sai, dá pra pegar o disco por aí. É sensa.

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Música

apresentando… filipe alvim

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Com um EP de cinco faixas e pouco mais de 15 minutos de duração debaixo do braço, Filipe Alvim pode ser a próxima-grande-coisa-a-sair das entranhas de uma cidade interiorana para o inesperado hype virtual.

Pronto para conquistar tanto os piolhos da microsfera indie quanto o caçador casual de bons refrães, Zero, o disquinho despretensioso que Alvim lançou em setembro desse ano via PUG Records, é um injeção de ânimo contra a monotonia e o saco cheio. Com pelo menos um hit em potencial (a grudenta “Domingo”) e nacos de poesia cotidiana e sincera em “Jardim do Amor” e “Meu Sofá”, o EP costura de forma certeira influências noventistas com um sotaque pop, brasileiro e urbano, passando longe de qualquer regionalismo forçado.

Mas antes que o disco termine, cabe a pergunta: quem é esse tal de Filipe Alvim afinal?

Mineiro de Juiz de Fora, Alvim entrou na música pela porta dos fundos da cena hardcore da cidade. Em 2008, ainda vivendo a adolescência em tempo real, ele cantava na Fugar, banda que durou “seis meses, uma demo e dois shows”, segundo o próprio.

“Acho que ainda tem [a demo] no Purevolume. Na gravação, eu quis gritar e ficou mais que uma bosta, porque eu cantava limpo no show e no ensaio, foi pala errada”, conta Alvim.  “A banda foi criada pra zuar Juiz de Fora e a cena hardcore, e seus personagens mal encarados”.

Apesar de pérolas como “O Dinheiro Domina” e “Acabou a Pobreza” não terem inspirado muitas rodas de pogo, a experiência frustrada acabou provocando uma epifania no músico. “Depois disso, parei de tocar bateria e comecei a aprender vioão. Então, tive a genial ideia de que sozinho não dependeria de ninguém. Grande ideia”, diz.

Com um espírito easy rider nos couros, Filipe Alvim pegou a viola e a estrada e seguiu viajando e compondo um pouco em cada cidade onde morou. “Escrevi duas músicas em Juiz de Fora, vendi todos os meus móveis e eletrodomésticos e fui pra Tiradentes (MG). Lá fiquei um pouco mais de um mês e escrevi mais duas. Depois disso, fui pro Rio e terminei outra”, conta o músico, que levou quase dois anos para reunir as composições e finalizar a gravação de Zero, que ficou pronto ano passado. “Nas gravações, tanto em 2010 quanto em 2012, eu saia de Botafogo, pegava o metrô, descia 18 estações depois e ia andando até o estúdio no Cavalcante”.

De volta à Juiz de Fora, Filipe  Alvim já começou a escrever novas canções, mas segundo ele “ainda faltam muitos detalhes” para o próximo disco sair. Durante o horário comercial, ele segue resolvendo pepinos diários, enquanto luta contra a morosidade da cena dita artística da sua cidade natal.

“Aqui tá longe de ser um bom lugar até para uma ida eventual”, dispara. “Existe poucas pessoas interessadas em produzir alguma coisa, estudar a música autoral, criar, investir, trazer uma banda de fora. A música autoral existe, mas tá sem direção. Só cover ou mesclado com [composições] próprias que se parecem tanto com as covers que eu não consigo distinguir”.

Na sequência, assista clipes de algumas faixas tiradas de Zero, de Filipe Alvim.

*Publicado também em O Inimigo, 3.12.13.

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