Música

The Men: Tomorrow’s Hits

Ano passado escrevi um texto sobre Tomorrow’s Hits, do The Men, para O Inimigo. Não lembro porquê resolvi segurar o texto, mas demorei demais e o assunto acabou ficando velho. Tomorrow’s Hits entrou na lista de melhores discos do ano passado do site e aproveitei alguma coisa do que tinha escrito no textículo que vai junto com o ranking, mas o texto completo permaneceu engavetado. Pra não se perder de vez, segue abaixo, na íntegra:

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Nem sempre uma mudança de direção na carreira de um artista significa prejuízo musical ou jura de morte por parte dos fãs. Exemplos existem de monte: Pantera, Beastie Boys e Los Hermanos conseguiram muito mais êxito – artístico e comercial – depois de repaginar radicalmente suas personas musicais. Com menos fama e tempo de estrada que os supracitados, os americanos da The Men acabam de trocar de vez o figurino de artista revoltado por calças jeans e camisetas limpas de uma banda de rock comum. E ficaram bem melhores assim, diga-se.

Surgida no Brooklyn, casa de nove entre dez bandas indies do momento, a The Men começou como um combo de punk e noise mais preocupado em inventar conceito do que em escrever canções. Immaculada, disco de estreia lançado por conta própria em 2010, chega a ser inaudível de tão barulhento – e chato. Passou batido, merecidamente. Foi só quando começaram a aliviar o braço nos ótimos Open Your Heart (2011) e New Moon (2012) que o The Men começou a se apresentar de forma mais palatável para uma audiência… Digamos, comum.

Tomorrow’s Hits, que saiu em março, é o cume dessa cruzada rumo à acessibilidade. Pode até ter sido pensado como piada, mas o título cumpre o que promete: das oito faixas do álbum pelo menos seis têm pedigree de single. Cada vez menos interessados em velocidade e mais atentos aos acordes parrudos aprendidos com Neil Young & Crazy Horse e Bruce Springsteen, o The Men fez um ótimo disco sem precisar inovar uma unha.

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Faixas como “Dark Waltz”, “Different Days” ou “Get What You Give” não têm absolutamente nada fora de série, na letra ou no arranjo. Mas são tão eficientes em sua simplicidade que periga correr menos de meia hora antes que você queira botar o disco pra rodar outra vez. Um bom exemplo é “Another Night”, uma das melhores do disco e, de longe, a mais pop. Começa com um riff de três acordes, que logo abre espaço pra um saxofone espertíssimo, à Stones fase Sticky Fingers. E a letra, sobre uma relação que vai e volta, é de um clichê tão familiar que nem vale a pena reproduzir aqui.

E é justo essa sensação de conforto e honestidade que faz de Tomorrow’s Hits não um grande álbum, mas um baita de um disco de rock. Quando a inevitável listinha com os melhores de 2014 sair, talvez pouca gente lembre do The Men. Mas a chance desse disquinho bacana ganhar um replay no seu som é bem maior do que muita “obra-prima” que tem aparecido por aí.

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Canalhismo

Seleta de links :: 13.03.15

Como hoje é sexta 13 e o  post anterior foi sobre horror satânico, vou deixar aqui uma breve seleta de links macabros pra já ir entrando no clima.

1. No site da Dazed & Confused tem uma listinha com dez filmes cults de horror satânico. Vale a pena dar uma sacada e programar as próximas madrugadas do Cine Torrent.

2. No The Dissolve saiu um artigo bem interessante sobre a boa nova safra do cinema de horror. Também vale dar uma conferida na crítica deles para It Follows, que promete ser para 2015 o que The Babadook foi para o ano passado, em termos de recepção de público & crítica. No texto, Scott Tobias já abre dizendo que é o melhor filme de horror americano desde A Bruxa de Blair. Não é pouca coisa não, bicho.

3. Na Unreality tem mais uma listinha do mal, com as interpretações mais interessantes do Capiroto nos quadrinhos. (Tem de Deus também)

4. E agora, para algo completamente diferente… Lá no Floga-se tem um texto interessantíssimo do Fernando Lopes sobre o modelo de negócios do Bandcamp, de longe a melhor plataforma de streaming para artistas independentes – tanto pelo lado da remuneração quanto pelo networking.

Por ora, é só. Voltamos logo menos.

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Cem vezes horror

100. At the Devil’s Door (EUA, 2014)

O horror satanista é um subgênero  interessante e cheio de possibilidades, ainda que ultimamente ande mal explorado no cinema. Embora certamente tenha seu período áureo que gerou clássicos – O Bebê de Rosemary, O Exorcista, A Profecia, todos feitos entre 1968 e 1976 -, nos anos mais recentes, o tinhoso tem ficado a mercê de roteiros rasos, que se limitam a repetir todos os clichês dos filmes de possessão, e de diretores que se valem de experimentalismos ultrapassados (found footage) para disfarçar a falta de ideias novas.

At the Devil’s Door, segundo longa do diretor Nicholas McCarthy, tenta revigorar o (sub)gênero com uma bem vinda lufada de ar gélido. Apostando mais em atmosfera e ritmo do que em sustos gratuitos, McCarthy constrói uma história aterrorizante utilizando a quantidade ideal de exposição para informar ao espectador o que ele deve temer, sem revelar detalhes ou regras. Apesar de vir pendurada no título, em nenhum momento do filme a palavra “diabo” ou algum dos seus equivalentes é dita; tampouco a fé, em Deus ou no que Ele representa, desempenha papel decisivo dentro da narrativa.

Se não é mencionado, o demônio pode ser visto em carne e enxofre em várias cenas. Em geral, a técnica de “mostrar o monstro” é um tiro no pé. Mas tanto McCarthy quanto o público sabem muito bem que Satã não é um vilão ordinário. Nesse caso, decisão de mostrá-lo denota ousadia e conta pontos a favor do diretor. A mensagem é clara: aqui está um filme disposto a ir até as últimas consequências, mesmo que isso signifique mostrar o horror mais inominável de todos.

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At the Devil’s Door segue três protagonistas em uma linha narrativa que, se não chega a ser convencional, também não cruza o limite do experimentalismo. A trilha começa com Hannah (Ashley Rickards, da série Awkward), uma jovem que é convencida pelo namorado a vender a alma ao diabo; e daí segue Leigh (Catalina Sandino Moreno, indicada ao Oscar de Melhor Atriz em 2005 por Maria Cheia de Graça), uma corretora de imóveis que tenta vender uma casa com alguns segredos abaixo do assoalho, e Vera (Naya Rivera, de Glee), irmã de Leigh.

Da maneira como se desenrola, o enredo revela mais sobre a natureza do antagonista que espreita das sombras do que sobre as personagens que estão sob a luz, diante das câmeras. Ainda que incomode um pouco, essa opção serve bem ao tipo de horror que At the Devil’s Door quer incutir no espectador. Aqui, o demônio é menos um agente do fim do mundo do que uma entidade predatória que precisa de vidas humanas para continuar existindo.  A grande revelação que o filme oferece é a de que o Mal, assim mesmo com maiúscula, é uma força que caminha livremente neste mesmo mundo em que vivemos e não há nada que possamos fazer para impedir seu curso.

Na maioria dos filmes, a ameaça desaparece quando ligamos a luz ao fim da sessão. Em At the Devil’s Door, é justamente nessa hora que o monstro se revela por completo.

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Cem vezes horror

Cem vezes horror

Depois de um tempinho parado, decidi reativar o blog como um exercício para me obrigar a escrever mais sobre literatura, cinema, quadrinhos e outros assuntos que me interessam. É também um maneira de conversar com os amigos que a distância ou a correria cotidiana me impedem de encontrar com mais frequência.

E pra empurrar o carro ainda mais pra frente, resolvi propor um desafio a mim mesmo: escrever sobre 100 filmes de horror, sem ordem de preferência. Não pretendo postar no ritmo maníaco das redes sociais, mas sempre que assistir a algum filme do gênero que pague o esforço de sentar e batucar as teclas, publicarei alguma coisa aqui, até chegar ao número 100. Nada fora de série, nada que vá desmantelar a internet. É só uma maneira de por no papel algumas ideias sobre as coisas que ando assistindo, além de servir de recomendação aos amigos que gostam de filmes de terror.

O próximo post (o de cima) é o primeiro da série. Faltam só 99. Força na peruca.

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Cinema

Tudo o que eu não queria ver no trailer novo dos Vingadores

Escrevo isto dois meses antes da estreia de Vingadores: Era de Ultron. Ontem, a Marvel liberou o terceiro trailer do filme e, como era de se esperar, a internet veio abaixo. Pela primeira vez, ouvimos James Spader dando voz – e que voz! – a Ultron; vimos um pedacinho do Visão de Paul Bettany e demos uma boa olhada nos gêmeos Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e Mercúrio (Aaron-Taylor Johnson). E no mais, Tony Stark & amigos continuam numa boa, salvando o mundo e soltando as piadinhas de sempre. Tudo muito massa.

Mas ainda assim, esse e os outros dois trailers do filme dos Vingadores mostram tudo o que eu não queria ver no filme dos Vingadores. Ou em qualquer filme de super-herói daqui pra frente.

Há um padrão sinistro emergindo nos filmes do gênero. De Christopher Nolan a Zach Snyder, seja Marvel ou DC, todos os filmes recentes de super-heróis terminam do mesmo jeito: em uma longa sequência de ação, nossos intrépidos heróis enfrentam os vilões do dia numa batalha de vida ou morte, enquanto uma cidade inteira e milhares de vidas inocentes são reduzidas a pó.

É a mesma lógica empregada nos velhos esquetes dos Trapalhões: quando a piada tiver se esgotado e não houver mais para onde ir, termina tudo em confusão que tá limpeza. Foi assim com o primeiro filme dos Vingadores, por sinal. E também com The Dark Knight Rises, Man of Steel, Guardiões da Galáxia, Homem-Aranha, etc, etc.

Em menos de 30 segundos, o novo trailer dos Vingadores já revela que vai terminar do mesmo jeito. Do meio pro fim, aliás, o trailer é só isso: Hulk e Homem de Ferro arrasando metade da cidade numa briga, prédios desabando, carros explodindo, um exército de andróides do mal invadindo Nova Iorque e os Vingadores no meio de tudo, encurralados naquela formação em círculo que eles adoram.

“Is that the best you can do?”, desafia Thor. E dessa vez, sou obrigado a fazer coro com ele.

Não estou criticando a violência nos filmes de super-heróis ou a verossimilhança dessas cenas, mas sim a estagnação criativa desses filmes. É um pensamento lógico: se você vai mostrar uma cidade vindo abaixo pela quinta vez – e se o seu filme está sendo feito menos de 20 anos depois de um grande atentado terrorista destruir uma das maiores cidades do mundo – , é bom que tenha motivos pra tanto. Do contrário, é só repetição de fórmula – e uma fórmula ruim, ainda por cima.

Na época do lançamento de Man of Steel – ou seja, há quase três anos – o roteirista Max Landis publicou um vídeo criticando o “padrão Trapalhões” dos filmes baseados em comics. Usando o exemplo do Superman, Landis argumenta que a própria natureza dos personagens deveria prover as soluções narrativas para dar um desfecho diferente a esses filmes. Eles são super-HERÓIS, afinal. O trabalho desse pessoal deveria ser impedir que cidades sejam destruídas. Ou não?

Alguma alma sem descanso que estiver lendo isso pode rebater: “Mas é um filme de super-herói! É de se esperar que no meio da batalha a cidade seja destruída, é assim mesmo!”.

Mas não tem que ser assim mesmo. É exatamente por isso “ser de se esperar” que precisamos ver algo diferente. Daqui a dois meses a gente volta a conversar.

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Música

mixtape: the aether tapes

Entre todos os serviços de streaming que brigam pela preferência do usuário, o 8tracks é um azarão. E também um dos mais interessantes.

Para quem nunca usou o serviço, vale um tutorial rápido: diferente de Spotify, Deezer e Rdio (pra ficar nos três principais), o 8tracks oferece um serviço que emula as velhas-mas-nem-tão-velhas-assim compilações em cassete, de um modo mais interessante que as ferramentas de criação de playlists dos serviços citados acima. O “catálogo” do 8tracks é construído pelos próprios usuários, que podem subir músicas das suas bibliotecas pessoais ou do soundcloud pra criar as fitinhas virtuais. Por um lado, isso limita um pouco as opções. Mas também favorece  a descoberta de sons inesperados, já que esse modelo é mais simpático aos artistas e ouvintes underground, que estão abaixo do radar do Spotify (Me refiro especificamente a experiência de usuário, não de remuneração aos artistas. Aí já é outro papo.)

Tenho usado o 8tracks de maneira intermitente há quase dois anos. Depois de um longo período longe, voltei esses dias para redescobrir algumas das minhas mixtapes favoritas e acabei criando uma nova, com alguns artistas que ouvi online numa tarde de garimpo no éter virtual.

Eis, com algumas comentários sobre as faixas e os artistas:

Levitation Room, “Loved”. Banda psicodélica de Los Angeles que lançou o EP Minds of our Own esse ano. Saiu em uma bela edição em cassete via Burger Records, mas também dá para ouvir no bandcamp deles.

The Rashita Joneses, “Mosquito”. Não sei muito sobre esse novíssimo trio de Winsconsin. Até agora, só lançaram esse single, que está como download gratuito no bandcamp. Fui ouvir por causa do nome e acabei gostando. No site rockofhearts.com tem uma entrevista com eles.

Tijuana Panthers, “Don’t Shoot Your Guns“. Talvez a banda menos desconhecida nesta fitinha, os Tijuana Panthers são um trio garageiro que já lançou bastante coisa. Essa faixa está no disco Max Baker. Mais info e sons no site deles.

Has a Shadow, “John Lennon”. Porrada psicodélica direto de Guadalajara, México. Estrearam ano passado com o ótimo Sky is Hell Black, que saiu via Captcha Records.

Michael Rault, “Nothing Means Nothing”. Beatles de porão. Do single Nothing Means Nothing, que saiu em cassete via Burger Records.

Adult Books, “Bedsit Infamies”. Punk rock meio chiclete, com jeitão de anos 90. Me lembra bastante o tipo de som que meus amigos na escola ouviam e queriam fazer com as bandas que tinham. Essa faixa é do disco deles de 2012, que tem aquela foto malhada de Kerouac & Neal Cassady na capa.

The Shivas, “You Make Me Wanna Die”. Pra variar, uma de amor. Cortesia do The Shivas e seu disco You Know What to Do, que saiu no fim do ano passado.

Dude York, “Believer”. Pop pesado e grudento vindo de Seattle. Do disco Dehumanize, que também saiu em cassete pela Burger Records. Melhor trecho da letra: “Even tought I’m a nihilist, I believe in getting caught up…”

Gaax, “Mega Boy”. Projeto de um cara só lá do Rio de Janeiro. “Mega Boy” é o primeiro single de um álbum que deve sair em breve, via Transfusão Noise Records.

Wett Nurse, “Hissy Fitt”. Doidera sem limites direto de Michigan. Com direito a eco nos vocais e órgão lisérgico. Ouça mais aqui.

Cool Ghouls, “What a Dream I Had”.  Fechando com uma psicodelia um pouco mais clássica, que ecoa desde os Byrds e os Beatles fase  “Paperback Writer/Rain” até coisas mais recentes, como Ride, Cosmic Rough Riders e Black Rebel Motorcycle Club. Do disco A Swirling Fire Burning Through the Rye, lançado ano passado pela Empty Cellar.

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