Já saiu a coletânea Travessa da Alfândega (com o selo da editora Caravela Cultural) que reúne crônicas, contos e receitas de bolo de um punhado de gente aqui da Província. Meu nome tá lá no meio e só pra contrariar publico aqui minha colaboração, com umas correções discretas em relação à versão do livro.
Não custa nada aproveitar o espaço e agradecer o convite do editor José Correia Torres Neto para integrar a coleta. Valeu, chapa!
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Notas sobre a invasão
Foi João do Rio, já nos primeiros anos do século XX, quem notou a fixação do carioca pela janela. Após suas andanças pela Cosmópolis calorenta, escreveu em 1912:
Pela manhã, ao acordar, o dono da casa, a senhora, os filhos, os criados, os agregados, só têm uma vontade: a janela. Para quê? Nem eles mesmos sabem. Passar de bonde pelas ruas da Cidade Nova desde as sete horas da manhã é ter certeza de ver uma dupla galeria de caras estremunhadas, homens em mangas de camisa ou pijamas, crianças, senhoras.*
Tomei emprestadas umas linhas do dândi carioca na tentativa de dar dignidade ao meu próprio fantasma mental, clássico espírito zombeteiro, que me acompanha desde os tempos de estudante do colégio das irmãs Dorotéias. Apareceu pela primeira vez num fim de tarde, entre o portão traseiro da escola na rua Felipe Camarão e o ponto de ônibus da Ulisses Caldas: tinha lá meus treze anos quando notei no andar de cima das óticas, farmácias e sapatarias espalhadas ao longo do percurso janelas muito parecidas com as da minha casa.
Dias depois sofri outro choque quando descobri que as tais janelas abriam-se dentro de pequenos apartamentos nos quais famílias inteiras dormiam e comiam como se estivessem isolados em uma granja ao invés de encravados até o pescoço na fuligem do centro da cidade. Entenda: para o garoto que eu era então, morador de um subúrbio modorrento onde o ponto alto da semana era a passagem do carro do lixo, morar no centro da cidade e ter o privilégio de olhar pela janela e ver algo acontecendo lá fora era o mais próximo de um super poder que a vida real poderia me oferecer. Se eu não podia sair voando pela janela e parar os ônibus com as mãos, pelo menos teria a sensação de morar na rua em que o ônibus passava.
Preso na minha fantasia, eu não entendia o porquê das pessoas que moravam nos tais apartamentos nunca saírem à janela. Olhando da calçada, às vezes dava para ver o espocar azulado de uma tela de tevê ou ouvir o murmúrio de um som ligado. Eu simplesmente não conseguia entender. Ora, ver tevê ou ouvir rádio no subúrbio ou no centro é essencialmente a mesma coisa não importa o que se assista ou ouça. Já a programação da janela muda consideravelmente de acordo com o domicílio.
Durante os três anos em que estudei na escola das Dorotéias observei os apartamentos da Ulisses Caldas não vi sequer uma orelha do lado de fora das janelas. Depois de um tempo cansei do joguinho, parei de caminhar olhando para o alto e esqueci o assunto.
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Recentemente, fui ao centro e caminhei pela Ulisses Caldas no fim da tarde pela primeira vez em sabe-se lá quantos anos. Quando me dei conta que aquele era o exato horário em que costumava saír do colégio, levantei a vista, procurei as janelas acima das lojas e reencontrei o mistério da minha adolescência, intacto como se não tivesse envelhecido um dia sequer. E aí, uma bigorna caiu na minha cabeça.
Novamente, invoco João do Rio, que anotou a idéia de escrever “um livro notável sobre a janela na civilização carioca”. Naquele dia eu também decidi escrever um livro, um tratado sobre os apartamentos dos lojistas da Ulisses Caldas e seu lugar no microcosmo social da Província. Em menos de meia hora estava resolvido: escreveria uma reportagem de fôlego, literária e delirante, desvendando os aspectos econômicos e culturais que levaram os comerciantes a morar em cima de suas próprias lojas. Quem eram aquelas pessoas? Como foram morar ali? Gostavam da vizinhança? Como viviam? Que hábitos tinham? – Eis algumas perguntas que esperava responder.
Durante dias martelei o projeto. Não escrevi uma linha sequer, mas fiz planos, elaborei uma lista de tarefas a serem cumpridas, estipulei prazos. Certa tarde comentei o assunto com um amigo, também ex-aluno das Dorotéias. Ele não pareceu impressionado (“Rende no máximo uma pauta em revista de arquitetura e decoração”, disse), mas deu o empurrão que faltava para o início da reportagem.
Entre goles de cerveja falou de outro amigo nosso dos tempos de escola cujo pai tinha uma sapataria na esquina da Ulisses Caldas com a Princesa Isabel e morava no primeiro andar da loja. Meu amigo desatou a falar sobre esse nosso conhecido, que se chamava Paulo, e de como o apartamento da sapataria era o nosso esconderijo perfeito para matar aula. Contou que íamos lá pelo menos uma vez por semana, principalmente porque Paulo tinha um videogame de última e seu pai, embora sempre ausente de casa, mantinha a geladeira cheia com todo tipo de iguarias – inclusive cervejas.
Forcei a memória até onde foi humanamente possível, mas não lembrei do tal Paulo. Para encerrar o assunto, meu amigo disse que telefonaria ao fulano, que ainda morava em cima da sapataria, e marcaria uma entrevista. Dias depois, me ligou e avisou que estava tudo certo para um almoço no domingo seguinte. Surpreendentemente, Paulo não apenas se lembrava de mim como ainda teria dito que seria um prazer rever-me. Fiquei meio desconfiado e já pensava em desistir da entrevista, mas meu amigo prometeu ir junto para ajudar a lembrar dos velhos tempos.
No dia marcado, parei em frente à velha sapataria e consultei o relógio. Era sete de Setembro e o centro da cidade recendia ao vazio dos feriados dominicais. Olhei para cima: lá estava a janela do apartamento, aberta em duas bandas, com vista panorâmica da Cidade Alta e seu milhão e meio de telhados. Parecia bonita e nova em folha, ainda que o resto do prédio estivesse bem estragado. A parede descascada era esverdeada e morta. Uma língua de lodo descia de uma bica no oitão do prédio. Pela vitrine ensebada da sapataria (fechada há três anos) via-se um emaranhado de caixas reviradas, tênis sem par e um casal de manequins decapitados, meio erguidos do chão. Além da janela do andar de cima, só a portinha lateral que dava acesso ao apartamento parecia intacta e convidativa.
Esperei meu amigo por meia hora. Telefonei umas três vezes, sem resposta. Na rua não passava ninguém, não se escutava nada, nem um eco dos desfiles militares. Comecei a ficar impaciente, mas tinha vergonha de entrar sozinho. Para todos os efeitos não conhecia esse Paulo, apesar dele afirmar se lembrar de mim tão bem ao ponto de ter saudade. Tinha medo de entrar numa situação constrangedora e quanto mais eu imaginava o que poderia acontecer, menos plausível parecia a história. Depois de outra meia hora, minha paciência finalmente acabou e meti o dedo no botão do interfone.
Do aparelhinho respondeu uma voz encharcada de estática:
- Ôpa…
Me identifiquei, falei do livro, invoquei o amigo ausente. Seguiram-se longos segundos de silêncio antes que a porta abrisse com um estalo elétrico.
No vestíbulo, dei de cara com uma escadinha encardida e estreita, cujo final eu não conseguia ver. Havia algo estranho. Sentia ter estado ali antes, mas não lembrava quando nem o porquê. Rememorei as histórias que meu amigo contou, tardes inteiras na frente da tevê, bebendo e jogando videogame, falando sobre garotas e música. Ótimas lembranças, mas não me vi participando de nenhuma delas. Nunca gostei de videogame e só provei minha primeira cerveja depois dos dezesseis.
No fim da escada, parei e olhei em volta. Estava em uma sala desarrumada, quase nua. Havia um sofá velho no canto esquerdo, quase embaixo da janela. Perto de umas caixas, uma mesinha de centro com um cinzeiro cheio até a borda e umas revistas espalhadas em cima. Na parede em frente à escada, um relógio marcava a hora errada. Logo abaixo, uma caixa de areia e duas vasilhas: uma com água, outra com ração, cheia de formigas.
- E aí. Quanto tempo, hein? Fica a vontade.
Era a mesma voz do interfone, menos metálica, mas ainda sem corpo. Calculei que vinha do cômodo ao lado, que parecia ser a cozinha. Olhei para dentro. Só vi uma mesa de jantar coberta com uma toalha xadrez e uma garrafa de café em cima.
- Tá a fim de uma água, um cafezinho, cerveja?
Aceitei a água, pra começar. Tentei parecer à vontade e balbuciei qualquer coisa, mas a voz não respondeu. Fiquei parado, olhando em volta e ouvindo o ranger de uma porta de geladeira sendo aberta, seguido de copo um copo se enchendo lentamente. Tirei meu bloquinho do bolso e comecei a fazer anotações.
- Entraí.
Entrei na cozinha esperando dar de cara com o dono da voz, mas só um copo d’água em cima da pia me esperava. Uma sensação estranha e quente atingiu meu estômago. Estanquei. Acreditei ter caído nas páginas de um romance gótico e antecipei o ataque sorrateiro de um personagem pálido, chamado Johann ou Solfieri, que me sugaria todo o sangue de uma golada só. Ouvi a sola de borracha do vampiro deslizar em minha direção, o farfalhar da capa abrir espaço para os braços erguidos, as garras apontadas para baixo. Mas eis que pouco antes do clímax, novamente a voz me despertou do transe. Agora emanava de um cômodo à esquerda.
- Só um minutinho que eu saio já. Fica a vontade aí.
Voltei para a sala e esperei. Tomei mais algumas notas. Me imaginei anos antes, sentado naquele mesmo sofá, conversando com os caras lá da escola. O sol entrava pela janela. O clima era agradável. Meus pés muito bem acomodados naquela mesa de centro, senti o toque de uma cerveja gelada na mão. Estirado no carpete, o gato ainda era um filhote. Agora já devia estar gordo, talvez cego e xexelento.
Mas naquela sala, não havia tevê. E muito menos aparelho de som ou estante de livros. As revistas na mesa de centro eram de pelo menos oito anos antes. Bebi o resto da água e ergui o copo, para ver meu reflexo. Distorcida, minha cara parecia ainda mais aparvalhada.
Comecei a sentir a apreensão própria das imaginações férteis, do tipo que fabrica sons, cheiros e visões grotescas. Parado no meio da sala em posição de alerta, me transmutei em um cão perdigueiro à espera da raposa que passaria correndo pela porta a qualquer instante. Lá de dentro, ouvi um som de algo grande sendo aspirado, depois expelido com violência. Um clique surdo, o agitar de uma lâmina nua contra o ar, depois o silêncio pesado e espesso. Uma bolinha de poeira atravessou a sala, flutuou por cima dos meus sapatos, entrou pela porta da cozinha e desapareceu.
Soltei o copo e desci correndo as escadas. Por sorte, a tranca era dessas que abrem por dentro sem chave e bastou um puxão para eu voltar à rua. Enquanto fugia, desabalado e sem olhar para trás, decidi encerrar o livro antes mesmo de começar a escrevê-lo. Continuei correndo em direção às cornetas militares que surgiam no horizonte, me sentindo patriótico feito o diabo.
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* RIO, João do. O Dias Passam. Porto: Chardron, 1912. p. 345.
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