Walter Tevis (1927-1984) é um dos grandes heróis esquecidos da ficção científica moderna. Escreveu apenas quatro livros de FC – os romances The Man Who Fell On Earth, Mockingbird e The Steps of the Sun, além da coletânea de contos Far From Home – mas cravou nessas páginas alguma das criações mais inventivas dentro do gênero.
Tevis ficou conhecido no fim dos anos cinquenta quando The Hustler, seu romance de estreia, caiu nas graças da crítica e depois virou filme, com Paul Newman arrepiando no papel principal e no bilhar. Mais tarde dois outros romances seus seriam adaptados para o cinema: The Man Who Fell On Earth, por Nicolas Roeg (e com David Bowie no papel principal) e The Color of Money, sequência de The Hustler, novamente com Paul Newman e dirigido por Scorsese.
No trecho da entrevista abaixo (traduzido livremente pelo locutor que vos fala), Tevis fala sobre sua abordagem particular da ficção científica. O audio completo da entrevista, de 1984, pode ser ouvido aqui. No mesmo site, tem também um papo com Jamie Tevis, esposa de Walter e também escritora, autora do livro de memórias My Life With the Hustler, sobre a convivência com o marido. Tudo isso veio do site Wired for Books.
***
Você também escreve ficção científica, mas de uma maneira diferente que a maioria dos autores desse gênero. Como isso aconteceu? Você começa escrevendo sobre jogadores, vagabundos e aí, de repente…
Acho que começou quando li O Mágico the Oz (risos); a Cidade Esmeralda de Oz. Eu gosto de mundos imaginários. Gosto de mundos de faz-de-conta. Foi isso que me atraiu para a ficção científica. Mas hoje eu mal leio ficção científica. Não aguento ler ficção científica sobre batalhas entre o bem e o mal, imitando romances medievais. Como Star Wars, que tem lá seu apelo, mas vai nessa linha medieval de cavaleiros brancos contra cavaleiros negros e garotos desabrochando em homens. Não tenho interesse em escrever esse tipo de coisa. O que me interessa é o cenário, o mundo que contém a história. Nos meus escritos, tentei criar meus próprios mundos de ficção científica, mas com uma abordagem diferente de Star Wars. Por exemplo, no meu livro The Steps of The Sun, o protagonista é um magnata imobiliário em crise de meia idade. Ele nem de longe lembra Luke Skywalker ou outro personagem do gênero. Não quero ficar malhando esse tipo de história, mas gosto de separar o que faço do tipo de ficção científica que depende de duelos de espadas e coisas do tipo.
Quando nos falamos por telefone você mencionou ter escrito um romance de ficção científica e uma coletânea de contos que, por sua vez, foi descrita como sendo de “ficção especulativa”. Não é exatamente a mesma coisa, né?
Não é, não. O termo “ficção especulativa” é uma tentativa desesperada dos editores para separar aquilo ali de Star Wars. Ou de Buck Rogers, que seja. Infelizmente, o termo ficção científica tem um peso muito grande. Não existe, no nosso vocabulário crítico, um termo adequado para definir o que escrevo. Não estou querendo dizer que sou o único. Muita gente já fez coisa semelhante. Mas eu gosto de brincar com o tempo e o espaço. Gosto de imaginar como vai ser o mundo daqui a cem anos. Esse tipo de coisa. Não quero escrever sobre ameaças mundiais, monstros gigantes – que é o que muita gente pensa quando se fala de ficção científica. Não tenho interesse em catástrofes nucleares, devastação ou guerra interplanetária. Então, para tentar descrever o que eu faço, os editores inventam termos como “ficção especulativa”.
|m|.
p.s.: Mockingbird, Far From Home e The Man Who Fell On Earth foram editados na coleção portuguesa Caminho Ficção Científica como Ave-do-Arremedo, Longe de Casa e O Homem Que Caiu na Terra, respectivamente. The Hustler saiu aqui pela Record como Desafio à Corrupção e The Color of Money como A Cor do Dinheiro. Os outros dois livros de Tevis, The Steps of the Sun e The Queen’s Gambit, permanecem inéditos em português.



