Em 1983, um tal de Lewis lançou um álbum chamado L’ Amour. Na capa do disco, que saiu pelo obscuro selo R.A.W. com uma tiragem mínima, um homem entre 25 e 30 anos, loiro, de peito nu, encarava a câmera com uma languidez fantasmagórica, numa foto desbotada em branco e preto.

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As dez canções do vinil não eram menos assombradas. Se os títulos sugeriam baladas românticas (“Let’s Fall In Love Tonight”, “Romance for Two”, “Cool Night in Paris”), os arranjos eram de trincar o espinhaço. Sintetizadores gélidos, pianos e violões delicados e vocais um tom acima do murmúrio afundam cada faixa em uma confortável atmosfera de melancolia e estranheza.

Os dois parágrafos acima poderiam muito bem resumir os primeiros passos de um grande artista, se as coisas não tivessem tomado o rumo do lado bizarro da Força. Tão subitamente quanto apareceu, Lewis sumiu do mapa sem deixar nenhuma informação biográfica atrás de si. L’Amour passou anos engavetado nas coleções de alguns caçadores de raridades, até ser redescoberto pelos garimpeiros da web e virar cult album.

Mesmo sem ter notícia sobre o paradeiro de Lewis, o selo americano Light in the Attic, especializado em raridades, resolveu comprar a briga e anunciou para junho desse ano o relançamento de L’Amour em vinil, CD e arquivo digital.

No site do selo, um texto interessantíssimo detalha a investigação empreendida pelo time da gravadora em busca do paradeiro do artista e algumas das teorias sobre a verdadeira identidade do músico. As descobertas – surpreendentes! – trouxeram mais perguntas que respostas, mas mesmo assim o selo decidiu prosseguir adiante com o projeto. E avisa: os royalties do disco ficarão guardadinhos, caso Lewis resolva aparecer para cobrá-los.

Enquanto o cara não vem e o reissue não sai, dá pra pegar o disco por aí. É sensa.

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Com um EP de cinco faixas e pouco mais de 15 minutos de duração debaixo do braço, Filipe Alvim pode ser a próxima-grande-coisa-a-sair das entranhas de uma cidade interiorana para o inesperado hype virtual.

Pronto para conquistar tanto os piolhos da microsfera indie quanto o caçador casual de bons refrães, Zero, o disquinho despretensioso que Alvim lançou em setembro desse ano via PUG Records, é um injeção de ânimo contra a monotonia e o saco cheio. Com pelo menos um hit em potencial (a grudenta “Domingo”) e nacos de poesia cotidiana e sincera em “Jardim do Amor” e “Meu Sofá”, o EP costura de forma certeira influências noventistas com um sotaque pop, brasileiro e urbano, passando longe de qualquer regionalismo forçado.

Mas antes que o disco termine, cabe a pergunta: quem é esse tal de Filipe Alvim afinal?

Mineiro de Juiz de Fora, Alvim entrou na música pela porta dos fundos da cena hardcore da cidade. Em 2008, ainda vivendo a adolescência em tempo real, ele cantava na Fugar, banda que durou “seis meses, uma demo e dois shows”, segundo o próprio.

“Acho que ainda tem [a demo] no Purevolume. Na gravação, eu quis gritar e ficou mais que uma bosta, porque eu cantava limpo no show e no ensaio, foi pala errada”, conta Alvim.  “A banda foi criada pra zuar Juiz de Fora e a cena hardcore, e seus personagens mal encarados”.

Apesar de pérolas como “O Dinheiro Domina” e “Acabou a Pobreza” não terem inspirado muitas rodas de pogo, a experiência frustrada acabou provocando uma epifania no músico. “Depois disso, parei de tocar bateria e comecei a aprender vioão. Então, tive a genial ideia de que sozinho não dependeria de ninguém. Grande ideia”, diz.

Com um espírito easy rider nos couros, Filipe Alvim pegou a viola e a estrada e seguiu viajando e compondo um pouco em cada cidade onde morou. “Escrevi duas músicas em Juiz de Fora, vendi todos os meus móveis e eletrodomésticos e fui pra Tiradentes (MG). Lá fiquei um pouco mais de um mês e escrevi mais duas. Depois disso, fui pro Rio e terminei outra”, conta o músico, que levou quase dois anos para reunir as composições e finalizar a gravação de Zero, que ficou pronto ano passado. “Nas gravações, tanto em 2010 quanto em 2012, eu saia de Botafogo, pegava o metrô, descia 18 estações depois e ia andando até o estúdio no Cavalcante”.

De volta à Juiz de Fora, Filipe  Alvim já começou a escrever novas canções, mas segundo ele “ainda faltam muitos detalhes” para o próximo disco sair. Durante o horário comercial, ele segue resolvendo pepinos diários, enquanto luta contra a morosidade da cena dita artística da sua cidade natal.

“Aqui tá longe de ser um bom lugar até para uma ida eventual”, dispara. “Existe poucas pessoas interessadas em produzir alguma coisa, estudar a música autoral, criar, investir, trazer uma banda de fora. A música autoral existe, mas tá sem direção. Só cover ou mesclado com [composições] próprias que se parecem tanto com as covers que eu não consigo distinguir”.

Na sequência, assista clipes de algumas faixas tiradas de Zero, de Filipe Alvim.

*Publicado também em O Inimigo, 3.12.13.

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Um dos primeiros livros que impressionaram o jovem Hunter Thompson, ainda na adolescência, foi O Coração das Trevas, de Joseph Conrad. A jornada do sujeito que parte em busca de outro na selva africana atingiu fundo o peito do rapaz, então apenas mais um candidato ao prêmio de Delinquente Juvenil do Mês, em Louisville, Kentucky. A descrição daquele mundo sombrio e misterioso por trás das árvores despertou um desejo adormecido. “Quando eu crescer”, pensou o jovem Hunter, “quero ir ”.

“Lá”, nesse caso, não era exatamente a África, mas qualquer lugar que não fosse aquela cidadezinha chata. Thompson se imaginava o próprio Marlow, esquadrinhando mapas com o olhar, procurando pelas formas estranhas das outras bandas da Terra.

Em 1960 foi Porto Rico, regado à rum; de 1962 à 64 foi a América do Sul, quente & brutal. Em 1968, retorna aos Estados Unidos, a verdadeira selva de perigos e trevas. Aqui vai começar a “jornada ao coração selvagem do Sonho Americano”. Montado numa Harley Davidson ou cavalgando o Grande Tubarão Vermelho no deserto, Hunter procurava o rio de Marlow, o rio que parecia “uma cobra desenrolada, com a cabeça no mar e o corpo em descanso, serpenteando sobre a vastidão, com a ponta da cauda perdida nas profundezas do interior”.[1]

Eventualmente, ele encontrou não um, mas vários rios e seguiu todos. Rios que cortavam o Kentucky Derby ao meio; que nasciam em Los Angeles e desaguavam em Las Vegas; que levavam à campanha presidencial de 1972 e ao Zaire, onde perdeu a oportunidade de assistir à Luta do Século.

Em cada uma de suas aventuras, ia mais fundo para provar a teoria de Faulkner de que a melhor ficção é mais verdadeira do que qualquer jornalismo. Não que concordasse totalmente com isso: para ele ficção e jornalismo eram “dois meios diferentes para alcançar o mesmo fim”. A ideia era forçar os limites entre as duas linguagens e criar um novo monstro, híbrido, no qual a própria subjetividade serviria como prova de autenticidade. Em teoria, “o olho e a mente do jornalista funcionariam como uma câmera. O texto seria seletivo e necessariamente interpretativo – mas, uma vez que a imagem fosse registrada, as palavras seriam definitivas”. [2]

No final, Hunter Thompson conseguiu o que queria. Criou uma nova forma de escrever, a meio caminho entre o jornalismo e a ficção delirante dos autores beats. Mas a viagem havia cobrado um preço: alienação, paranoia, delírios de grandeza alimentados por um exército de seguidores malucos que o colocavam num pedestal de guru. Tendo chegado ao fim do rio, Marlow se transformara em Kurtz.

Hunter Thompson puxou o gatilho em 2005, deprimido e cansado de tudo. Foi o ponto final em um texto que se alongara além do previsto.

“Chega de jogos. Chega de bombas. Chega de caminhadas. Chega de diversão”, escreveu em seu bilhete de despedida.[3]

***

Vamos deixar as verdades biográficas de lado por um momento. E se o velho Hunter tivesse segurado a barra? E se o bom Doutor Gonzo ainda estivesse  entre nós? O que estaria fazendo/escrevendo?

Hunter poderia ter sobrevivido, mas seu alter ego Raoul Duke, não. Sua falta de modos e de limites hoje estariam obsoletas em um mundo mais depravado e, ao mesmo tempo, mais paranoico. Autodestruição é o prato do dia no mundo inteiro e o cinismo, artigo de brinde em qualquer compra acima de 5 dólares.  E seria o próprio Duke, em um raro momento de lucidez, o primeiro a reconhecer o fim da linha. “Chega de falar de drogas, né? Até falar em drogas pode acabar pondo você na prisão. Os tempos mudaram drasticamente, e não foi para melhor”.[4]

Sem Duke, Hunter Thompson ainda tentava manter a fama de mau, mas também havia se tornado um sujeito pacífico, devotado à família.

A cirurgia corretiva que fizera no quadril há alguns anos ainda doía nas noites frias de fevereiro. Era um saco, mas a dor não parecia tão ruim quando pensava nos pequenos prazeres abandonados. Nada de andar de moto, dirigir ou jogar futebol. Caçadas? Nem pensar. Disparar qualquer coisa maior que um revólver exigia um esforço que seu corpo não estava mais disposto a aguentar. Ah sim! Toda a dor do mundo pela chance de ser jovem outra vez! E para o inferno com os analgésicos prescritos!

Quase nunca saia de Owl Farm, seu pedaço de Paraíso no Colorado. Passava a maior parte do dia assistindo aos jogos na tevê e alimentando seu blog no portal da ESPN. Claro, ele ainda acompanhava política, assistia aos noticiários como todo mundo. Votou em Obama em 2008, mais porque temia entregar outros quatro anos nas mãos dos republicanos do que por acreditar no otimismo cego do “Yes, We Can”. Mas hoje em dia só falava em política se alguém perguntasse a respeito – e eles raramente perguntavam.

A última vez que saiu de casa foi para assistir Rum, filme produzido e estrelado por seu velho amigo Johnny Depp, baseado em um livro seu. As críticas não haviam sido das melhores, mas Hunter nunca foi de ligar para a opinião dos outros. Aos detratores, dizia que o filme poderia ter saído muito pior, caso não tivesse exigido mudanças drásticas no roteiro. “Queriam dar uma porra de final feliz de Hollywood pro meu livro!”, resmungava. “Sem chance, cara”.

Ainda que não fosse nenhuma maravilha, o filme impulsionara uma nova onda de interesse nele e naqueles livros “estranhos & brutais”, escritos há tanto tempo. Agora, além de regar as plantas e polir sua coleção de armas, suas atividades cotidianas incluíam afugentar os cretinos das editoras, que não paravam de urubuzar atrás de uma migalha do velho Hunter. Só no mês passado, recebera três propostas para publicar Prince Jellyfish, seu romance rejeitado, escrito em 1960. Uma das editores oferecera até um contrato combinado, que além do livro incluía a produção de outro filme.

Hunter recusara todos. Não porque desgostasse da grana ou da atenção, mas porque acreditava que já havia se passado tempo demais para que alguém pudesse achar aquele livro bom. Ultimamente, só lhe importava reler os seus heróis – Conrad, Hemingway, Faulkner, Kerouac –  e professar o sentido da vida em uma frase de Mark Twain:

“A diferença entre a palavra correta e a palavra quase correta é a diferença entre o vaga-lume e o relâmpago”.


[1] CONRAD, Joseph. No Coração das Trevas. Tradução de José Roberto O’ Shea. São Paulo: Editora Hedra, 2008. p. 30.

[2] THOMPSON, Hunter S. Texto de Capa para Medo e Delírio em Las Vegas: uma Jornada Selvagem ao Coração do Sonho Americano. Tradução de Camilo Rocha. In:­­______ A Grande Caçada aos Tubarões. São Paulo: Editora Conrad, 2004. p. 46.

[3] BRINKLEY, Douglas. Footbal Season is Over. Rolling Stone Magazine, 8 set. 2005. Disponível em http://tinyurl.com/hunterRIP. Acesso em: 4 jun. 2013.

[4] THOMPSON, Hunter S. Reino do Medo. Tradução de Daniel Galera. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. p.22.

* Texto escrito para a revista Shot!, projeto do amigo Everson de Andrade de e sobre Jornalismo Gonzo. A pauta era imaginar o que Hunter Thompson faria se ainda estivesse vivo. Deu nisso. A revista, aliás, pode ser lida na íntegra aqui.

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É fácil, extremamente fácil não gostar de Vincent Gallo: seja pelos filmes que ele dirige ou pela pessoa em geral desagradável que se esforça para ser (capaz de, entre outras gracinhas, anunciar em seu site um lote do próprio esperma pela bagatela de U$ 1 milhão), a ojeriza em torno do sujeito é geral. Por essas & outras, a vida tende a imitar aquela ponta dele em Goodfellas e o pobre coitado acaba metralhado até quando a culpa não é dele (vide o fracasso bem intencionado que foi Tetro).

O que pouca gente sabe ou se esforça para ignorar é que antes de ficar famoso como polemista e republicano roxo, Gallo tinha uma carreira musical interessante, ainda que pouco comentada. Em períodos diferentes, chegou a tocar em bandas ao lado de Jean-Michel Basquiat e Lukas Haas, além de já ter colaborado com John Frusciante, RZAYoko Ono e Sean Lennon. Nos anos oitenta, encabeçou o estranhíssimo Bohack, que deixou um único e raro LP, It Took Several Wives – que, aliás, Gallo também vende em seu site por U$ 520. Em 1998, inclui na trilha de seu filme Buffalo 66 temas próprios como “Lonely Boy” e “A Somewhere Place”, que chamavam atenção para uma escrita particular e pouco convencional.

Tudo isso foi só preparação de terreno para o que seria When, disco solo que Gallo lançou em 2001, via Warp Records. Gravado de forma franciscana, o disco é basicamente guitarra, voz, mellotron e alguma bateria. Mais ou menos comentado na época (lembro de Fabio Massari recomendando o disco numa madrugada da MTV de antigamente), When não é tão difícil de digerir quanto os projetos anteriores de Vincent Gallo, mas está longe de receber a etiqueta de “pop”.

Coalhado de riffs quase jazzísticos, melodias intuitivas e fraseados de teclado que se superpõem como colagens, o álbum é a trilha sonora para o grande filme que Gallo ainda não fez. Guiado por um senso de experimentação natural, When consegue ser inusitado até quando parte para a obviedade das bobas canções de amor. As letras de “Laura” e “Yes, I’m Lonely” resvalam no banal, mas justamente por isso atingem um nível assustador de sinceridade.

Talvez inconscientemente, Vincent Gallo criou uma gema perdida da música alternativa da década passada; uma espécie de Kid A ou Yankee Hotel Foxtrot de porão, sem a expertise inovadora do primeiro ou a ourivesaria pop do segundo, mas igualmente conectado à solidão latente do intervalo entre um século e o próximo.

Depois de When, Vincent Gallo lancou mais dois títulos pela Warp: o single So Sad (uma sobra das sessões de When) e a compilação Recordings of Music for Film, que saiu em 2002 e desagradou até quem teve a boa vontade de elogiar o disco anterior. Foi o último disco lançando por Gallo como artista solo.

p.s.: O blog Buffalo Tones tem links para baixar When, o disco do Bohack e Recordings of Music for Film, que traz todas as composições da trilha de Buffalo 66 assinadas por Gallo mais algumas outras compostas para outros filmes. Aos homens e mulheres de boa vontade, a casa recomenda todos.

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